O trânsito de Salvador está uma loucura. Isso é fato. Nós ficamos presos aos engarrafamentos sem nenhuma possibilidade de fugir e isso é estressante. Para não desencadearmos um processo de loucura coletiva, precisamos achar uma solução e eu encontrei a minha: como não posso ler enquanto dirijo, ouço música ou um programa numa rádio. Isso me distrai porque muda o meu pensamento para outra direção e dá a impressão de que o tempo passa mais rápido.
Hoje, quinta-feira, 08/07/2010, resolvi ouvir o Programa Sintonia, com José Medrado, enquanto voltava para o trabalho após o almoço. Eu gosto de ouvir uma abordagem diferente do Espiritismo e a participação dos ouvintes. Já peguei o programa no meio e, em um dado momento, uma ouvinte mandou uma mensagem dizendo estava desesperada porque estava grávida de 04 meses e que pensava em abortar, porque não tinha condições de ter aquela criança. Medrado disse-lhe que não iria incentivar o aborto e que ela deveria refletir sobre a situação e o porquê de não ter tomado os cuidados necessários. Só que não foi isso que me chamou a atenção. Em dado momento, Medrado fez alguns questionamentos e disse “será que essa criança não vai ser um divisor de águas na sua vida?”. Essa frase não me saiu mais da cabeça.
Hoje à tarde estava lendo sobre o Holocausto e tive a oportunidade de assistir a dois excelentes documentários sobre a ascensão e queda de Hitler, mostrando com relatos e imagens como tudo foi construído por esse megalomaníaco cruel, apoiado por outros fanáticos, com base em interpretações esdrúxulas do conhecimento esotérico, aperfeiçoando um discurso convincente a ser feito por uma pessoa com problemas psicológicos graves para hipnotizar milhares de pessoas, tornando-as seguidoras cegas e capazes de dar as suas vidas em troca da manutenção do nazismo. O que mais me chamou a atenção, mais uma vez, não foram as atrocidades cometidas, mas os relatos dos sobreviventes do Holocausto que optaram pela vida e mantiveram a esperança numa condição em que a morte seria a escolha mais sensata, num cenário sem solução em curto espaço de tempo. Muitos desses sobreviventes se apoiaram em pessoas que também poderiam ser executadas se fossem descobertas, mas que arriscaram as suas vidas para salvar a vida de uma ou de mais pessoas.
Eu não acredito em anjos, pelo menos naqueles anjos com asas e sentados sobre nuvens de algodão. No entanto, eu acredito em pessoas que surgem apenas para fazer o papel de anjos (de protetores), dando uma palavra amiga, enxugando uma lágrima, oferecendo um conselho que acorde alguém em desespero ou mesmo que a ‘carregue’ durante as fases mais críticas, até que seu protegido seja capaz de seguir o seu caminho com recursos próprios. São os ‘divisores de águas’ nas nossas vidas, como Medrado sinalizou que poderia ser o filho da ouvinte desesperada, uma pessoa que não nos deixa desistir ou que pega na nossa mão, desviando-nos para um sentido de crescimento, quando o sofrimento e o desespero impedem que a gente enxergue um sentido para nossa vida.
Há alguns meses estava conversando com Rejâne (minha irmã que é bióloga) sobre a crueldade de algumas pessoas e ela me disse que “a violência é natural do ser humano”, que isto está comprovado na própria história de evolução da espécie e na história de todas as guerras e conquistas pelo poder. Sei que os fatos não negam que a violência é inerente ao ser humano, mas não consigo achar natural que a gente veja o sofrimento dos outros, as diferenças sociais e a violência em que vivemos sem fazer nada. Se possuo em mim essa crueldade inerente à minha espécie, penso que tenho que aprender a não deixar que isso aflore. Precisamos parar com esse individualismo e covardia, mudando os paradigmas e plantando essas sementes nas pessoas mais jovens. Sementes de condescendência e compaixão por aqueles que sofrem. Hitler não treinava os alemães ‘puros’ desde cedo para lhes obedecer cegamente e não funcionava? Por que não podemos deixar de ser apenas ‘anjos’ para os nossos próprios filhos e nos tornar ‘divisores de águas’ para outras pessoas, ao menos para uma pessoa que não faz parte da nossa família ou do nosso ciclo de amigos. Certamente, chegaram pessoas desesperadas perto de você e você não quis se expor ou se envolver e deixou de dar um momento de atenção, um conselho ou uma atitude de compreensão, imaginado que aqueles não eram problemas seus e que aquelas eram pessoas por cujo sofrimento você não era responsável. Pode ter ocorrido, também, outra situação em que você era a única esperança de uma pessoa, mas você se acovardou por insegurança ou medo. Tomou a sua decisão de não se envolver e assistiu de longe o desenrolar da história.

Eu não tive histórias graves na minha vida até hoje e sou muito grata por isso, mas nos momentos de desespero que passei sempre tive a ajuda de alguém desse ou de outro plano que me fez acreditar que era preciso manter a esperança e a firmeza e que nenhum sofrimento dura para sempre. Aceitei a mão amiga e me recuperei até conseguir seguir com meus próprios passos.
Cada vez mais acredito, ao ver as previsões de desastres mundiais ou lendo a história do mundo e das atuais catástrofes climáticas que estão ocorrendo, que a tragédia e o sofrimento coletivo expulsam o anjo ou o demônio que temos adormecidos internamente, a depender de quem somos de fato e o que realmente carregamos em nossas almas e torço para que as atuais e futuras tragédias revelem muito mais anjos do que demônios, numa forma de fazer sobreviver na maioria aqueles que tenham vontade sincera de mudar a realidade de individualismo e injustiça na qual vivemos.
Você tem relatos de ‘anjos’ ou de ‘divisores de águas’ na sua vida ou conhece um relato importante? Então mande para que a gente divulgue essas histórias, de forma a mostrar que sempre aparece alguém no momento em que tudo nos leva a crer que chegamos ao fim. A esperança não pode morrer e o sofrimento do outro tem que servir de exemplo para que não provoquemos mais dor e sofrimento em um futuro que eu não sei quando virá, mas que virá. Eu vou dar a partida, divulgando o texto “A Garota com a Maçã”, de Herman Rosemblat, sobrevivente do Holocausto. (Confira no link.)
Até a próxima oportunidade!
Rosely Lira (contato: roselyclira@yahoo.com.br)